Terça-feira, Agosto 11, 2009

CONFESSAR UM DIA


Agora que as férias acabaram instala-se a nostalgia, não das férias propriamente, mas dos momentos inesquecíveis passados com a família. Eu e os meus filhos, mais próximos, longe da rotina, das obrigações sociais de uma vida nem sempre compensatória. Regressar, mesmo exercendo um esforço para contrariar essa tendência, significa pensar nos trabalhos que se avizinham, nos conflitos para gerir, no stresse. Resta olhar para as recordações acumuladas durante as doces semanas e interiorizar que desta vez não me vou deixar engolir pela avalancha e que vou cada vez mais usufruir da felicidade de ver os meus filhos crescer, e eu com eles. Para que um dia, tal como Pablo Neruda nas memórias que de momento estou a ler, possa dizer "Confesso que vivi", não é fácil...

Sexta-feira, Julho 17, 2009

A PÉROLA MAIS APETECIDA




Despeço-me, temporariamente, dos dias de 48 horas, das loucas correrias contra o relógio. Vou afundar-me no cheiro a maresia nos cabelos dos meus filhos, no seus sorrisos rasgados e puros de contagiante felicidade, vou receber potes de beijos com a chancela de gelados, gomas, sei lá... Arrepio-me de alívio só de pensar que me afasto da hipocrisia em todas as suas possíveis manifestações e camuflagens, da prepotência que esmaga e atrofia, da incompreensão, dos compadrios por vezes insultuosos, da incompetência que se escamoteia com sorrisos plásticos de quem há muito aprendeu a saber viver bem na corda bamba. Donde vou sair? É simples, vou ausentar-me da selva em que o dia-a-dia se tornou, vou recuperar junto do afecto que vive todos os dias ao meu lado e que tantas vezes é arrastado pela voragem das loucuras quotidianas. Chegou a minha vez de me deixar ofuscar e enebriar pelo brilho da pérola mais apetecida...

Quinta-feira, Julho 16, 2009

SILÊNCIO PENOSO


Quando acho que já pouco me vai surpreender, porque de olhos bem abertos sei do que esse ser racional chamado homem é capaz, dou por mim a ler o relato das atrocidades a que foi sujeita Lydia Gouardo, desde os oito anos de idade. Mais um caso real que desvela um monstro cruel que se escamoteia debaixo da capa de um ser racional, um pai , um homem que se supõe amar e proteger uma família. De resto, as lágrimas afloraram-me aos olhos, tudo se sucedeu na minha mente como se de um filme se tratasse. Uma criança violentamente queimada, abusada, ultrajada, que cresceu sem saber o valor da palavra dignidade e amor, enquanto à sua volta o mundo girava, numa sociedade dita esclarecida, como se nada fosse, como se aqueles gritos lancinantes fossem normais, como se aquela magreza e contusões fossem naturais como o ar que se respira. A própria criança cresceu a pensar que o mundo, as pessoas, tudo se resumia àquilo. Corajosa mulher que dá a conhecer ao mundo toda a humilhação e sofrimento a que foi exposta, sim, porque conseguiu sobreviver, contar, para que alguém escrevesse e a mensagem chegasse até nós, porque ao ser privada dos seus mínimos direitos, respeito, dignidade, também não a deixaram frequentar a escola, pelo que é quase analfabeta. Um relato para ler e para reflectir, para intervir, para observar... pode acontecer mesmo na porta ao lado, quando menos esperamos e vindo de quem menos suspeitamos...

Quarta-feira, Julho 15, 2009

ESTÁDIOS DO ENTENDIMENTO


Há espaços pelos quais nutrimos um carinho imorredoiro e sem os quais não somos os mesmos. Damos voltas e voltas aos meandros do nosso entendimento, a insegurança torna-se companhia habitual e eis que eles nos surgem como o refúgio convidativo, o seio carinhoso onde ainda nos podemos aconchegar. Estou num momento assim, por isso este espaço me chama, me convida. As suas chamas me envolvem numa paixão irreprimível pela partilha, pelo acetinado efeito que a palavra exerce sensual e provocantemente no pensamento. Acho que regresso mais rica de emoções, depois de uma solidão maturada, depois de uma aridez voluntária que serviu de escape e de defesa contra os espinhos desta vida...

Quarta-feira, Outubro 15, 2008

NÉSCIOS, TALVEZ


Não sabia o que dizia, talvez amanhã se encontrem, aveludadas palavras se esperam no confronto demente. Já ninguém acredita nessas madrugadas, outros dias rejubilam por ti, viras as costas, queres obliterar o espectro do que pareces, acreditas, já não ingenuamente naquele olhar, naquele sorriso. Temes o vindouro, ergues os ombros, porque suportam o teu digno porte, é tudo o que resta... ainda é muito, é o recomeço do ciclo, da margem que te sustenta os passos, caminha, olhar para trás?!

Quarta-feira, Outubro 01, 2008

DEPOIS DE SETEMBRO


Não sei como vieste,

mas deve haver um caminho

para regressar da morte.

Estás sentada no jardim,

as mãos no regaço cheias de doçura,

os olhos pousados nas últimas rosas

dos grandes e calmos dias de Setembro.

Que música escutas tão atentamente

que não dás por mim?

Que bosque, ou rio, ou mar?

Ou é dentro de ti que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,

dizer-te apenas que estou aqui,

mas tenho medo, medo que toda a música cesse

e tu não possas mais olhar as rosas.

Medo de quebrar o fio

com que teces os dias sem memória.

Com que palavras ou beijos ou lágrimas

se acordam os mortos sem os ferir,

sem os trazer a esta espuma negra

onde corpos e corpos se repetem,

parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim, ó cheia de doçura,

sentada, olhando as rosas,

e tão alheia que nem dás por mim.


Eugénio de Andrade




Cresta-se a inocência, inauditos desejos reflorescem num corpo ausente, pudera talvez confessar os ensejos que contestas, o olhar que sonegas num recuperar desses manás que julgas omissos…o eterno retorna a atrair esses fluidos que espargem as tuas ansiedades, não sabes se vais, se irás…

Segunda-feira, Setembro 08, 2008

CRUZAMO-NOS



Um dia atrás de outro, perdemos o fio das horas. Algures existe essa pacificação, longe da ironia, ou da auto-comiseração. À volta seres orbitam, olhas uns, vês outros, sentes que nada te pertence, tu não pertences a nada. Dás por ti a reflectir, não na essência dos dias, mas na do nada. "Nihil" preenche a tua memória, desejos de nirvana atormentam aquilo que foste. Sombras perseguem-te, mas um dia, ei-lo. Aquilo em que acreditavas ao alcance de um toque, arrepias-te, a consciência do que és deixa-te serena e apazigua a tua ansiedade. Seres inóspitos rejubilam com a miséria dos outros, sem se aperceberem da sua própria. Sorri-lhes a tragédia alheia, comentam, agitam... num secreto adejar divagas, estás fora de ti. Não desejas o regresso, um olhar fugaz torna hirtas as tuas carnes, sentes que aquele é o momento, a circunstância que não pode escapar, a tua vida já não pertence aos meandros do que foste, ajaezados domínios te seduzem, tanta conversa de circunstância gelou as tuas veias, necessidades pusilânimes de oxigénio assomam a tua perspectiva, perscrutam-te olhares, na sombra... sentes o que foste...



Que vens contar-me
se não sei ouvir senão o silêncio?
Estou parado no mundo.
Só sei escutar de longe
antigamente ou lá para o futuro.
É bem certo que existo:
chegou-me a vez de escutar.
Que queres que te diga
se não sei nada e desaprendo?
A minha paz é ignorar.
Aprendo a não saber:
que a ciência aprenda comigo
já que não soube ensinar.
O meu alimento é o silêncio do mundo
que fica no alto das montanhas
e não desce à cidade
e sobe às nuvens
que andam à procura de forma
antes de desaparecer.
Para que queres que te apareça
se me agrada não ter horas a toda a hora?
A preguiça do céu entrou comigo
e prescindo da realidade
como ela prescinde de mim.
Para que me lastimas
se este é o meu auge?!
Eu tive a dita de me terem roubado tudo
menos a minha torre de marfim.
Jamais os invasores levaram consigo
as nossas torres de marfim.
Levaram-me o orgulho todo
deixaram-me a memória envenenada
e intacta a torre de marfim.
Só não sei que faça da porta da torre
que dá para donde vim.

Almada Negreiros

Quarta-feira, Agosto 27, 2008

COPAS FLUTUANTES


Fantasmagóricas, com toques surreais, em verde e espiga ondulam nos meandros da tua inconsciência. São momentos em que se mescla o que és, o que serás, porventura ostracizando o que poderias ser, o que poderás ser. Não acreditas, seca-se a garganta com a fonte mesmo ali ao pé. O dedo acusador macera-te as feridas, algumas perenemente sem cauterização possível. Ergues os braços, não procuras socorros divinos, procuras o teu próprio espectro que há muito ondeia sobre ti, uma espécie de halo que te persegue, mas que continuamente parece inatingível. Talvez a certeza esteja num simples interstício, ali tão camuflado, quase imperceptível, como breve luzinha bem exígua que te abre o caminho no meio da escuridão. Como pesam essas sombras, como atrofiam, como escamoteiam o irromper de uma regeneração que se quer urgente. Circunspecta, à volta nada se move, mas tu sabes que tudo está em alerta, em vigília constante para te devorar. Desejas o silêncio, anseias por ele, talvez o teu único luxo, a tua única volúpia…de momento…

Quinta-feira, Agosto 21, 2008

VERDE E CASTANHO




Assim, sentes que nada te apetece e que não pertences a lado nenhum. Faseias o verde e o castanho e entrevês o que foi, o que já não existe. Algo está naquele lugar de memórias, de nostalgias em que te revês: cheiro de cravos e de flores de laranjeira, zumbidos de abelhas, vozes sussurrantes... ali, onde tiveste de tomar algumas das mais fulcrais decisões da tua vida. De verde e castanho se revestem essas imagens desestruturadas por longínquos sons motorizados, como se de um poema de Álvaro de Campos se tratasse. O tempo pode conseguir esbatê-las, mas não desmoroná-las, essa capacidade em ti reside. Outros tons de verde e castanho, outros temperos de cinza, terra, tijolo. Imorredoiros os que são senhores da tua nostalgia, ao alcance de um toque, de um rememorar...ainda te pertencem.


Eh-lá o interesse por tudo na vida,
Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras
Até à noite ponte misteriosa entre os astros
E o mar antigo e solene, lavando as costas
E sendo misericordiosamente o mesmo
Que era quando Platão era realmente Platão
Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro,
E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dele.


Álvaro de Campos

Segunda-feira, Agosto 18, 2008

FIESA 2008










A edição do FIESA de 2008 foi, mais uma vez, um momento de máximo deslumbramento. Como apreciadora de arte e estética nas suas mais multifacetadas manifestações, foi esse o efeito que mais esta incursão na cidade da areia em mim produziu. O evento deste ano é dedicado a Hollywood. Ali estão representados alguns dos filmes mais emblemáticos que marcaram o meio cinematográfico. Alguns exemplos: Drácula, Indiana Jones, Batman, ET, 007, Psico, Os Pássaros ( o busto do mestre Hitchcock figura entre as construções de areia), Charlot, o indigente metediço e desajeitado encarnado por Charlie Chaplin, personagens que fizeram as delícias dos púberes e não só...Nestas situações não há como o poder do ícone...

Quinta-feira, Agosto 14, 2008

EVOLANDO-ME




Não tenho estado muito por aqui. Peço desculpa aos meus bons amigos. Mas tenho andado por aí. Desde acções de formação a correccção de exames nacionais...ufa! Estava mesmo a precisar de me evolar.

Vou visitar todos, começo já hoje :))

Dois dos sítios onde estive, foram o Palácio Nacional de Mafra e a Tapada, também de Mafra.


Aquele Palácio pulula de história, desde D. João V a D. Carlos, que pelos vistos foi quem mais dele usufruiu, assim como também da Tapada de Mafra, ou não fosse ele um exímio caçador. Segundo o guia do percurso, necessitava que lhe colocassem o animal na mira de um tiro certeiro, só às vezes... Depois de no ano transacto ter visitado o Palácio de Sintra, pergunto-me, de que é que o nosso rei D. Carlos e a sua excelsa esposa, a rainha D. Amélia, não usufruíram avantajadamente? O iate, as louças, a arte...Esqueci-me de dizer que antes também tinha visitado o Aquário Vasco da Gama e o nosso rei D. Carlos também anda por todo o lado. Não nego a história, todos são unânimes em o considerar um homem de cultura e riqueza intelectual exorbitantes, um verdadeiro patrono.


Eu queria mesmo era falar do Palácio Nacional de Mafra. Comecei pelas enfermarias, gostei de recuar alguns séculos atrás e sentir o aroma das mezinhas dos frades que por ali orbitavam, não devia ser fácil a vida do frade boticário... Evoquei também uma das cenas do filme Ligações Perigosas, inspirado na obra homónima de Laclos. Aquele momento em que Madame de Tourvel é sangrada, morrendo com a culpa.

Por todos os salões desfila a arte, exuberância e cultura nacionais. A minha predilecção circunstancial foi para a sala dos troféus. Paredes imensas repletas de uma extraordinária profusão de hastes. Muitas delas troféus do rei D. Carlos que exercia os seus dotes na Tapada de Mafra. No final, não podia terminar sem uma incursão na loja. Muito pouco alusiva a motivos do palácio, era mais do género generalista.

O dia seguinte foi todo reservado para a Tapada. Com crianças, o percurso teve de ser de comboio. Enquanto os adultos se deliciam com a paisagem luxuriante e pensam nos afortunados que os reis de Portugal que dela usufruíram foram, as crianças só pensam quando vai aparecer o próximo javali...

Soube que em momentos próprios se pode caçar animais velhos ou com as hastes tortas ( discriminação, tive pena deles).

Acabei comigo a pensar num excerto do livro que estou a ler, A rapariga que roubava livros, de Mark Zusak, cuja narradora é a morte " Passaram-se muitos anos desde tudo aquilo, mas continua a haver imenso trabalho. Garanto-lhes que o mundo é uma fábrica. O sol coze-o, os humanos governam-no. E eu permaneço. Eu levo-os comigo."

Terça-feira, Julho 15, 2008

SIM...TALVEZ...


Tenho falado tão pouco aqui, no entanto tanto para dizer…fluem memórias, nunca circunspectas, porque para isso já bastam os coletes-de-forças da vida hodierna. Desejaria talvez flutuar por uma qualquer galáxia onde as ilusões ainda tocassem a ponta dos meus dedos, em vez disso vejo-me constantemente cooptada para o que já não ilude, para o dever sem a equilibrada correspondência do prazer. Onde fica o depósito da confiança nestes dias? Palavra tão poucas vezes pronunciada, tantas vezes sussurrada pelo impulso da volúpia. Que lugar para a comiseração? Para a fraternidade, para o cultivo das sementeiras, ficar-nos-emos pela terra do nunca? Nunca o quereria…
Era ela naquele momento, diáfana, atraente, murmurava e estendia-me a mão, acreditei. Era crédula. E agora? Essa capacidade ter-se-á perdido? Será o fruto inóspito de uma qualquer confluência trocada pelos nunca lineares caminhos de uma hipotética crença? Talvez um dia, talvez uma hora feliz…

Os caminhos são longos quando se caminha apenas com as pernas.

Mia Couto

Quinta-feira, Julho 03, 2008

CONHEÇO O SAL




Conheço o sal da tua pele seca

depois que o estio se volveu inverno

da carne repousando em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos

quando das bocas se estreitavam lábios

e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros ou louros

ou cinzentos que se enrolam

neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minha mãos

como nas praias o perfume fica

quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal

da tua língua, o sal de teus mamilos,

e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,

ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,

um cristalino pó de amantes enlaçados.



Jorge de Sena

Quinta-feira, Junho 19, 2008

DISSOLUÇÃO


Perscrutaram-na sombras, há muito perseguidoras do ser, há muito dissecadas, julgadas banidas, pelo que sabe ser, ou pensa ser... Quantas vezes colocada em desiguais confrontos com ela própria sai a vencer uma atrevida, intrometida insegurança? Produto dos mais diversos contextos. Erro dela, feitio dela? Nesta altura crê que não. Olha à volta, vê-se rodeada de meros espectros humanos, movidos por muito vis e ofuscantes interesses, nada reputatórios daquilo que deveria ser o ónus da raça humana, em toda a sua plenitude. Flúi a vida como um rio, talvez a diferença seja o leito onde este se move…pedregulhos há-os certamente, mas tudo dádivas da natureza com as quais é necessário conviver e para as quais profícuas alternativas envolvem e acarinham a nossa reflexão. Mas, o que dizer dos pedregulhos pérfidos que nascem da acção humana? Sendo os mais traiçoeiros, não podem entrar nas dádivas da natureza, têm de ser vistos como vulgares tumores geradores de putrefacção e que, como tal, será necessário extrair imediatamente e pela raiz…

Humanista é uma pessoa com grande interesse pelos seres humanos. Meu cachorro é humanista.

Kurt Vonnegut Jr.

Quarta-feira, Maio 28, 2008

TIAGÃO


Tiagão, para rimar com tigrão, era a designação que corria entre os compinchas. Nascido Tiago Filipe, era oriundo de uma aldeia transmontana. Encontrava-se, de momento, a estudar na universidade da Madeira. Apresentava-se sempre com a indumentária cuidadosamente vincada. Diziam os entendidos que até a cuequinha e a meinha…
Descendente de honrados lavradores, em cuja casa abonada de adega, lagar e forno de lenha a povoação gostava de aparcar, não havia dia que não se apresentasse perante os compinchas da universidade de dentadura resplandecente e em riste. O segredo da felicidade do mocinho, por vezes contagiante, não estaria, superficialmente, ao alcance dos menos atentos. Perante a exasperação dos colegas de quarto, Tiagão fazia questão de organizar a roupa de todos, desaprovava a sordidez de posicionamento de objectos, botas enceradas de lama ou poeiras. Era tudo espanejado, não sem antes lançar alguns esgares jactantes de repúdio, visto ser homem de poucas, mas boas palavras. Diziam os entendidos que era a herança do tio… Sim, Tiagão era sobrinho do padre da sua aldeia…dizia que desde tenra idade conhecia todas as cansativas e estonteantes lides da árdua e pouco mundana vida eclesiástica, desde o confessionário, passando pela sacristia, entrando durante a visita pascal em todos os fogos da povoação, aflições paroquiais e paroquianas. Bem tentavam os mais malandrecos puxar evocações queirosianas do imberbe padre Amaro, mas sem resultados práticos, Tiagão, de tão discreto, nunca se descosia.
À parte os afazeres, tendencialmente domésticos na residência estudantil, o maior deslumbramento, e a explicação do nome por que era conhecido, acontecia nos bares e discotecas que frequentava com os amigalhaços do peito. Era vê-lo a actuar entre as moçoilas …apenas trocava olhares e monossílabos acompanhados de um lamber de beijos trepidante, roçava -se e roçavam-no pela pista, estava o engate feito, nem havia lugar a troca de nomes ou telefones. A canção do engate coraria perante tais manobras, mais escaldantes que as possíveis na casa branca, acho que vi esse filme. Com a passagem do tempo, as suas investiduras iam de vento em popa, a sua dentadura resplandecia mais do que nunca. No ginásio, até turistas o levavam para os hotéis em busca de mais exercício físico. O pessoal pasmava…aquilo não era coisa que só se revelasse lá na Madeira, seria a maleita da insularidade? Não…aquilo o rapaz trazia no pelo, naquela aldeiazinha transmontana deviam ser levados da breca…
Até que um dia, ei-la, Perpétua…
Era uma mocita pálida, sardenta, nariguda, magricela, de formas assimétricas, todos pensaram…mais uma aventura…e desta vez tabulada mais por baixo. Mas, Perpétua e Tiagão pareciam ter colado, em todo o lado, quando o pessoal o convidava e se preparava para uma noite de alta performance, lá estava ela…tornando impensável qualquer golpada…Águas corriam e correram debaixo da ponte, um dia veio o golpe de misericórdia, aquele que atingiu o pessoal bem lá no alvo: Tiagão e Perpétua iam casar. Podia lá ser? O pessoal beliscou-se para ver se não tinha sido apanhado de surpresa no final de mais uma noite de moina…
Mas, para descanso do pessoal, foi prometida uma despedida de solteiro, durante a qual Tiagão foi testado aos limites e objecto de inúmeras apostas…todas perdidas no momento em que ele pediu a outro colega que fosse o alvo do Table Dance que haviam decidido oferecer-lhe e se despediu da stripper que lhe atiraram para o regaço.
As parcas iam tecendo das suas, primaveras iam e vinham. Já no continente, o pessoal saudosista gosta de rememorar numas jantaradas regadas com boa vinhaça aqueles velhos tempos. Actividades ao ar livre também fazem parte do cardápio… Tiagão foi interpelado para uma simples tarde de lazer…A resposta chegou do outro lado da linha, curta como era sua prelecção, mas também lacónica…
- Não posso, tenho de estar na minha sogra às duas horas em ponto. Ela vai ao cabeleireiro e eu tenho de ir com o caniche à tosquia.
Diz-se que está tão amestrado como o caniche branco da sogra, fofo e de pelo aparado, aquele que Perpétua segura pela trela…